Negócios
Cresci no Mercado Financeiro por Dominar Soft Skills, Diz Nova CIO da Avenue
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Em 20 anos no mercado financeiro, Marcela Rocha foi muitas vezes a única, ou uma das poucas mulheres, na sala. Da primeira, e também última, liderança feminina que teve ao longo da carreira, ouviu: “Seja você mesma”. Um clichê porque é real. “Entendi que não precisava ser dura nem me mostrar frágil; precisava ser a Marcela, uma pessoa de agregar e escutar”, lembra a executiva, que assumiu em abril como CIO (Chief Investment Officer) da Avenue, corretora de investimentos no exterior do Itaú.
Foi esse entendimento e a capacidade de traduzir a complexidade do mercado que a trouxeram até aqui, responsável por aproximar os brasileiros dos investimentos internacionais em uma plataforma com mais de 1 milhão de clientes. “Ao longo da minha carreira, não cresci pelo diferencial técnico, e sim pelas soft skills.”
Formada em economia pelo Mackenzie, com mestrado no Insper, Marcela percebeu já no primeiro estágio, no Banco Real, que o mercado estava de olho mesmo em talentos de outras universidades. “Minha formação não foi o diferencial, mas tive sorte”, diz ela. E por sorte, quer dizer que trabalhou e estudou muito, claro, além de ter aproveitado as oportunidades que surgiram no caminho.
Nascida e criada na Freguesia do Ó, um dos bairros mais antigos de São Paulo, aos 16 anos começou a trabalhar em uma escola de inglês. Durante um intercâmbio na Inglaterra financiado pelo dono da escola, morou na casa de um professor de economia da Universidade de Oxford e expandiu os horizontes. “Na minha realidade no Brasil, ninguém falava em faculdade, carreira. Era trabalhar para ajudar os pais.”
Do Banco Real, seguiu para o Fator, onde ganhou destaque pelas projeções macroeconômicas e colocou a instituição no top 5 do Banco Central. Foi ali que chamou a atenção de um gestor da Principal Asset Management, empresa onde permaneceu por 13 anos e chegou a economista-chefe para a América Latina. “Quando os debates ficavam inconclusivos, eu organizava as ideias, acalmava o time e trazia o consenso”, conta.
A habilidade de conectar pessoas e alinhar diferentes perspectivas lhe rendeu a confiança da liderança. Tornou-se porta-voz da gestora, passou a liderar equipes e, nos últimos três anos na empresa, foi convidada a trabalhar diretamente com o CIO global na construção da estratégia de investimentos ao lado do time baseado em Hong Kong. Hoje, também é membro do Conselho de Economia da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
Sem tentar se moldar aos ambientes pelos quais passou, a executiva buscou transformá-los. Criou programas para ampliar o recrutamento de jovens de universidades tradicionalmente fora do radar do mercado financeiro e incentivou a presença feminina, da base à liderança. “Aos poucos, dando o exemplo e mobilizando as equipes, vamos provar que é normal a mulher crescer e tornar o ambiente muito mais empático e humano.”
A seguir, Marcela Rocha relembra o início da carreira, conta o que a destacou em um mercado ainda majoritariamente masculino e a levou a assumir agora como CIO da Avenue.
Forbes Brasil: Como a sua origem e formação moldaram o início da sua carreira no mercado financeiro?
Marcela Rocha: Meus pais não fizeram faculdade e sempre conseguiram tudo pelo trabalho. Meu pai trabalhava com construção civil e minha mãe é secretária do Safra há mais de 40 anos. Eu brinco que aos 16, ganhei uma carteira de trabalho da minha família e comecei como secretária numa escola de inglês. Por ter facilidade com o idioma, os donos da escola pagaram um intercâmbio para a Inglaterra. Arranjei um emprego na Pizza Hut e morei na casa de um professor de economia de Oxford, e ele me convidava para assistir às aulas. Achei aquilo maravilhoso e decidi fazer economia.
Na minha realidade no Brasil, ninguém falava em faculdade, carreira. A gente precisa ajudar nossos pais a trabalhar. Mas no intercâmbio conheci pessoas que me incentivaram e me guiaram a prestar vestibular. Na volta, prestei Mackenzie porque era noturno e me permitia trabalhar de dia. Depois, entendi que o mercado financeiro foca muito na FGV, Insper e USP. Minha formação não foi o diferencial da minha carreira, mas tive sorte.
O diploma de determinada faculdade ainda é importante para fazer carreira no mercado financeiro hoje?
Infelizmente, sim. Em todas as instituições que passei, quando abrem um programa de estágio, direcionam para essas faculdades. E esses estagiários são concorridos. Eu sempre sugeri expandir esse leque. Hoje falamos tanto de contratações com base em habilidades, não tanto no currículo e no diploma, mas no mercado financeiro ainda tem bastante esse olhar. Essas faculdades conseguem trazer um programa de educação muito mais amplo.
Como foi superar essa barreira no início da carreira?
Consegui meu primeiro estágio no Banco Real porque fui a melhor no teste de raciocínio lógico e decidiram me dar uma chance. Mas eu não gostei muito e pedi demissão. Depois, passei no Banco Fator. Fui péssima no teste de Excel, mas passei porque minha redação era excelente. Bateu a síndrome da impostora por ser a única fora de fora da FGV/USP/Insper e não ter as ferramentas técnicas, então fui atrás e aprendi por conta própria.
Era estagiária de economia, comecei a acertar a inflação e apareci no top 5 do Banco Central. Fui promovida, fiquei cinco anos lá e um dos gestores foi para a Principal Claritas e me convidou. Foi uma escola porque era uma asset muito maior, um ambiente com pessoas mais seniores, que davam a vida por aquilo e me ensinaram muito.
Como foi se firmar nesse ambiente?
Eu era a única mulher em um ambiente de muita pressão com pessoas muito seniores. Entendi que não precisava ser dura nem me mostrar frágil; eu precisava ser a Marcela, uma pessoa de agregar e escutar. Quando os debates ficavam inconclusivos, eu organizava as ideias, acalmava o time e trazia o consenso. Foi assim que ganharam confiança em mim, me tornei porta-voz da empresa para falar com os clientes e comecei a liderar pessoas. Foi a época em que eu mais trabalhei na vida, das 7 da manhã às 8 da noite.
Sempre procurei manter a humildade e aprender com os clientes. Muitas vezes, aquilo que parece óbvio para quem está no mercado precisa ser explicado passo a passo. Também criei um programa de estágio voltado a estudantes de diferentes universidades. Sempre tive uma preocupação com o desenvolvimento e a carreira das pessoas.
Essas habilidades e a comunicação também te levaram a uma carreira global na Principal. Como foi essa transição?
Eu sugeri que devíamos nos aproximar da matriz americana. Comecei a participar das discussões globais e fui convidada a ser economista-chefe da América Latina, gerindo equipes no Chile e no México. Nos últimos três anos lá, o CIO me chamou para a estratégia global, trabalhando junto com o time de Hong Kong. Eles eram muito rápidos, mas tinham dificuldade com storytelling e comunicação. Meu papel era usar as skills deles para escalar resultados e traduzir as análises de forma didática.
O que você diria que te destacou para continuar subindo?
Definitivamente as soft skills. Ao longo da minha carreira, não cresci pelo diferencial técnico; cresci por conseguir usar as habilidades dos times para dar visibilidade, escalar os resultados e ajudar na gestão.
O que te atraiu para a Avenue e qual é o seu principal desafio hoje?
Vim para a Avenue de novo por causa das soft skills. A empresa está crescendo muito e precisava de alguém para organizar os times, ganhar escala e traduzir informações para os clientes. Hoje as áreas de Economia, Análise, Conteúdos e Investor ficam sob o meu guarda-chuva. O desafio é escalar essa eficiência, ajudar os clientes a terem melhor retorno e integrar tudo isso à nossa expansão junto com o Itaú, que é um canal fundamental para democratizar e levar o investimento no exterior com qualidade e governança para mais brasileiros.
Vindo desse contexto que você contou, como foi a sua relação com o dinheiro trabalhando no mercado financeiro?
No início, foi um susto enorme. Meu primeiro salário como efetivada, com 18 anos, em 2006, foi de R$ 3.500, o que já era mais do que a minha mãe ganhava como secretária. Depois minha chefe falou para a liderança que eu estava sendo sondada e dobraram meu salário. Foi um passo enorme. Enquanto via estagiários com carro e viagens para fora, eu guardava tudo e continuava andando de ônibus, não tinha o sonho de ter carro. Minha relação com o dinheiro sempre foi de agradecimento, cuidado e muito pé no chão.
Como foi crescer em um mercado majoritariamente liderado por homens?
Quando eu entrei no mercado financeiro, minha primeira chefe foi mulher. Esse foi um diferencial enorme. Ela foi mentora, amiga, não via só a Marcela profissional, mas a menina precisando de um direcionamento. O maior ensinamento foi: “Seja você mesma”. Você pode ser uma mulher combativa, delicada, tranquila, mas seja você, porque um personagem não se sustenta. Depois eu nunca mais tive chefes mulheres, mas a liderança dela foi fundamental. Sempre busquei incluir outras mulheres.
O que falta para termos mais mulheres nesse setor?
Precisamos de muita intencionalidade. O filtro das faculdades e a falta de mulheres querendo áreas de operação, por exemplo, são desafios. Nós líderes precisamos nos organizar para dar visibilidade aos projetos femininos. Aqui na Avenue, tivemos um “boom” de bebês e as mulheres se uniram para criar uma sala de amamentação, o que foi acolhido por todos. Aos poucos, dando o exemplo e mobilizando as equipes, vamos provar que é normal a mulher crescer e tornar o ambiente muito mais empático e humano.
Como você organiza a rotina para conciliar uma posição de liderança acompanhando de perto seus filhos pequenos?
São escolhas. Falamos pouco sobre a executiva que não quer abrir mão da carreira, mas quer buscar o filho na escola e levar no futebol. Na Avenue, deixei claro: não me importo de trabalhar até 1h da manhã, mas preciso de flexibilidade se meu filho ficar doente. Eu costumo sair do escritório às 17h, faço toda a rotina de mãe e, quando eles dormem, às 20h30, volto a trabalhar. Tem que ter organização e responsabilidade para fazer a flexibilidade valer a pena. Nosso CEO, Daniel Haddad, é pai de gêmeas e fala “Hoje eu vou na apresentação de balé da minha filha.” Isso também é um exemplo para os homens. E não é um compromisso qualquer; são seus filhos.
O que você lê, ouve e estuda para estar sempre atualizada?
É rotina e disciplina. Acordo todo dia 5h30, antes dos meus filhos, e já leio os meus jornais preferidos. Tento chegar no escritório o mais cedo possível, leio os e-mails e participo do morning call. Faço todas as reuniões e à noite, quando estou no trânsito, gosto de escutar podcasts, a maioria de mercado e negócios, como o Outliers.
A trajetória de Marcela Rocha, Chief Investment Officer da Avenue
Por quais empresas passou
Banco Fator, Principal Asset Management e Avenue.
Formação
Economia pelo Mackenzie e mestrado no Insper.
Primeiro emprego
Secretária de uma escola de inglês.
Primeiro cargo de liderança
Economista-chefe de Brasil na Claritas.
Um hábito essencial na rotina
“Estar com meus filhos.”
O que te motiva
“Agir de acordo com os meus valores e princípios em tudo o que faço, seja em casa ou no trabalho, dando o exemplo. Isso faz a gente acordar com propósitos que não são financeiros.”
Tempo de carreira
20 anos
O post Cresci no Mercado Financeiro por Dominar Soft Skills, Diz Nova CIO da Avenue apareceu primeiro em Forbes Brasil.
Powered by WPeMatico