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O Lado Ruim do Lado Bom do Japão
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Para onde estamos indo com tanta pressa?
As cigarras, por exemplo, passam o verão inteiro cantarolando por todos os cantos do Japão. Ou talvez seja apenas um pedido de socorro para suportar o calor intolerável de quase 40 °C.
Elas são mais numerosas e barulhentas do que as vending machines (5 milhões) e as lojas 7-Eleven (20 mil). São seres resilientes. Persistentes.
O significado da cigarra, para quem acredita que algumas respostas da vida estão na natureza, como eu, está ligado à transformação e à paciência. Veja só. Ela passa anos sob a terra antes de finalmente voar. E a troca de sua pele simboliza deixar o passado para trás para poder crescer.
Eu já sabia que aquelas cigarras estavam tentando me ensinar alguma coisa.
O Japão foi, sem dúvida, o país mais extraordinário que já conheci.
Logo na saída do aeroporto de Narita, a caminho da nossa primeira viagem de Shinkansen, o famoso trem-bala, lá estava eu, admirada, elogiando a pontualidade, a limpeza, a educação e a eficiência em todos os detalhes.
Mas o que me fascinou mesmo foi observar a calma com que os japoneses vivem a vida. Uma virtude pouco explorada por nós, ocidentais.
Eu já sabia que ficaria impactada com Tóquio, uma das maiores metrópoles do planeta (37 milhões de habitantes), com sua organização impecável. Mesmo tendo nascido e vivido em São Paulo e passado boa parte da minha carreira viajando para Nova York, aquilo tudo me surpreendeu.
Eu já sabia que as ruas eram inacreditavelmente limpas. Só não sabia que não existem lixeiras nas cidades. Cada um carrega e é responsável pelo próprio lixo. Eu, que amo tudo limpinho, saía catando garrafas e latas deixadas por alguns turistas mal-educados.
Eu não sabia que, nos primeiros anos escolares, as crianças não faziam provas. As escolas priorizam que elas aprendam a ter autocontrole, humildade, paciência e respeito ao próximo. Imagine que os próprios alunos, desde pequenos, ajudam a limpar suas escolas.
Eu já sabia que a comida seria maravilhosa. O Japão era o país favorito do brilhante chef Anthony Bourdain, falecido em 2018, e isso diz muita coisa. Não importa se você escolhe comer num yokocho (pequenos becos ou ruas repletas de restaurantes), numa loja de conveniência como a FamilyMart, onde descobri que o equivalente emocional do nosso pão de queijo talvez seja um frango frito sem osso, ou num restaurante estrelado Michelin. Existe respeito e cuidado com os ingredientes, com o preparo e com a apresentação.
Comer é um dos rituais que eles mais valorizam.
Eu já sabia que o Japão tem uma das maiores expectativas de vida do planeta. Hoje, mais de 95 mil japoneses já passaram dos 100 anos. E os idosos continuam fisicamente ativos. Vi com os meus próprios olhos. Estão nas ruas, puxando seus carrinhos de compras, caminhando, subindo escadas.
Os japoneses parecem não se render facilmente ao tempo.
Eu já sabia que encontraria os banheiros públicos mais limpos do mundo. O filme “Dias Perfeitos“, do diretor Wim Wenders, conta a história de Hirayama, um homem que limpa banheiros públicos em Tóquio e que, além de ter orgulho da sua profissão, encontra felicidade em suas paixões pela música, fotografia e livros.
Eu já sabia que a natureza imperava. Quase 70% do território japonês é coberto por florestas. Sem falar nos canais de Kyoto, no deslumbrante Monte Fuji, na ilha mágica de Naoshima, onde é mandatório tirar os sapatos para apreciar as obras de Monet, e na ilha sagrada de Miyajima, nos templos, santuários e castelos seculares que parecem implorar para que a gente simplesmente pare.
Nessas alturas, você pode estar se perguntando: que escolha equivocada de título. O Japão parece apenas magnífico. “Zero defeitos”, como dizem os jovens.
Acontece que luz e sombra caminham juntas. E isso vale para pessoas, empresas e países.
Eu não sabia que o silêncio era quase uma regra nos metrôs. Minha filha Isa me dava “bronca” o tempo todo porque as pessoas olhavam para mim como se eu fosse uma cigarra gritando. Meu tom de voz definitivamente não é baixo.
A disciplina é levada tão a sério que, muitas vezes, não existe espaço para flexibilidade.
Mesmo abarrotados, os vagões permaneciam impressionantemente silenciosos.
Eu não sabia que mais da metade da população japonesa ainda usava máscaras faciais. Elas servem não apenas como forma de cuidado coletivo diante de um simples resfriado, mas também como um hábito social de privacidade (sim, você leu certo) que já existia muito antes da Covid.
Eu não sabia que os japoneses, ao contrário dos brasileiros, não buzinam (meu marido, Marcão, achou isso muito civilizado). Chamar a atenção parece quase um constrangimento.
Eu não sabia que um país tão tecnológico ainda dependia tanto de dinheiro em espécie. Em alguns lugares, como no Castelo de Osaka, o cartão de crédito ou Apple Pay simplesmente não era uma opção.
Eu já sabia que teria certa dificuldade na comunicação. O que não esperava era, em restaurantes mais tradicionais, encontrar uma certa hostilidade à presença de estrangeiros. Algumas placas já nos afastavam logo na entrada: “Não falamos inglês. Não temos cardápio em inglês.”
Eu já sabia que os japoneses eram reservados. Mas não estava preparada para ver tão poucas demonstrações públicas de afeto e, aqui, nem estou falando de casais, mas de famílias. Para uma brasileira expansiva como eu, confesso que isso me trouxe certa tristeza.
Talvez porque eu tenha estudado neurociência e aprendido sobre o poder do toque. Abraçar, segurar uma mão, encostar em alguém são gestos pequenos para o tamanho do efeito que podem provocar.
Existe no Japão uma pressão social profunda para não desapontar a família ou a comunidade. Em sua manifestação mais extrema, há pessoas que decidem desaparecer voluntariamente e recomeçar a vida longe de tudo e de todos. O fenômeno tem até nome: johatsu, ou “evaporação”. Pessoas que, de alguma forma, preferem sumir a conviver com a sensação de fracasso.
É difícil não pensar no preço de uma sociedade que valoriza tanto não incomodar o outro.
Nosso amigo Erick Rosa, que mora há 8 anos em Tóquio, nos contou que é comum encontrar funcionários que já poderiam estar aposentados, mas continuam trabalhando. Para muitos, é uma equação pessoal que mistura honra, propósito e identidade.
Construída ao longo de uma vida dedicada ao trabalho, quase sempre na mesmíssima empresa. Sem falar na pressão financeira.
A cultura de um país define a identidade de seu povo e é uma de suas mais poderosas ferramentas de desenvolvimento. Mas toda cultura também carrega suas cicatrizes. E sinto que o Japão ainda carrega algumas muito profundas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, dezenas de cidades japonesas, incluindo Tóquio, Osaka, Nagoya, Yokohama, Kobe e Kawasaki, foram devastadas por ataques aéreos. Hiroshima e Nagasaki sofreram algo ainda mais inimaginável: a destruição provocada pelas bombas atômicas.
Tivemos a oportunidade de visitar o Museu Memorial da Paz de Hiroshima. Naquele dia, passei mal. Só queria chorar. Talvez porque, depois de dias admirando a força daquele povo, eu finalmente estivesse diante de uma parte da narrativa que ajudava a explicar tamanha resistência.
É claro que essa força não nasceu da guerra. Ela tem raízes em uma cultura milenar, moldada por valores como o senso de coletividade, muita disciplina e responsabilidade. E foram justamente esses valores que ajudaram Hiroshima a começar sua reconstrução apenas 90 dias após a bomba. Hoje, Hiroshima é uma cidade altamente desenvolvida e próspera.
Minha filha, Manu, obcecada por história, voltou com um mapa de Hiroshima, que está na parede do seu quarto. Talvez seja isso. Do Japão, a gente volta com muitos mapas. Alguns de papel. Outros de memórias, que acabam sempre nos levando de volta.
Ah, e depois de três semanas ouvindo as cigarras, descobri uma coisa interessante: só os machos cantam. Eles cantam para acasalar.
Viajei meio mundo para aprender sobre paciência, contemplação e silêncio, e acabei constatando que os machos continuam fazendo barulho para chamar atenção.
Talvez a pergunta não seja apenas: para onde estamos indo com tanta pressa? E sim: o que estamos deixando de sentir enquanto temos tanta pressa para chegar?
Japão, dōmo arigatō gozaimasu.
*Luciana Rodrigues é conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. Também é aluna de pós-graduação em neurociências e comportamento.
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