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Nova era? A ciência das ‘canetas emagrecedoras’ e por que elas podem baratear

Redação Informe ES

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O mercado das “canetas emagrecedoras“ está numa fase sem precedentes. Isso porque o fim da patente da semaglutida (princípio ativo por trás de medicamentos como Ozempic e Wegovy) abriu caminho para uma corrida bilionária por versões genéricas e biossimilares.

Até então restrito a uma parcela da população capaz de arcar com custos que superam mil reais mensais, o tratamento agora pode caminhar para as massas. Estimativas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e de grandes players do setor, como a EMS, apontam para uma redução significativa de preço.

Essa queda pode aliviar o bolso do consumidor. E forçar o Sistema Único de Saúde (SUS) a reavaliar a viabilidade de um tratamento que, por um lado, pode custar R$ 8 bilhões anuais, e, por outro, pode economizar bilhões em cirurgias e complicações.

Nesta reportagem, o Olhar Digital te explica a engenharia por trás dessas moléculas, o que esperar da próxima geração desse tipo de medicamento e os perigos reais de um mercado paralelo de falsificações que cresce na mesma velocidade que a demanda pelo “corpo ideal”.

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A engenharia por trás do ‘desligar a fome’

Para entender por que estas substâncias são consideradas uma revolução, é preciso olhar para o “painel de controle” do corpo humano: o hipotálamo. Localizada na base do cérebro, essa região do tamanho de uma amêndoa regula o software do nosso apetite por meio de um sistema de chave e fechadura.

Em condições normais, após a ingestão de alimentos, o intestino libera hormônios chamados incretinas. O mais importante é o GLP-1 (Peptídeo Semelhante ao Glucagon-1). Esse hormônio funciona como uma chave química que viaja até o hipotálamo e “tranca” o sinal da fome, o que dispara a sensação de saciedade.

Fórmula estrutural de molécula de GLP-1 circulada por lápis vermelho
A grande inovação tecnológica das “canetas emagrecedoras” foi redesenhar o hormônio GLP-1 para ele durar mais tempo no organismo – Imagem: zimmytws/Shutterstock

O ponto de atenção na nossa biologia de fábrica é a durabilidade. O GLP-1 natural é bem instável e tem vida útil de dois minutos. Depois, acaba degradado pela enzima DPP-4. É por isso que, pouco tempo após uma refeição, o sinal de alerta para a próxima volta a ser acionado.

Semaglutida vs. Tirzepatida

A grande inovação tecnológica das “canetas emagrecedoras” foi redesenhar o GLP-1 para resistir à degradação. A ciência farmacêutica criou, na prática, uma “chave de titânio” que permanece ativa no organismo por muito mais tempo.

A evolução técnica pode ser dividida em gerações de “hardware biológico”:

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  • Primeira geração (Liraglutida/Saxenda): Análogo do GLP-1 com aplicação diária. Foi o primeiro passo para provar que a modulação hormonal era segura e eficaz;
  • Segunda geração (Semaglutida/Ozempic): A engenharia molecular permitiu que a molécula circulasse por sete dias com apenas uma dose semanal. Ela foca no receptor de GLP-1, retardando o esvaziamento gástrico e silenciando o “food noise” (pensamento constante em comida);
  • Terceira geração (Tirzepatida/Mounjaro): É um agonista duplo. Além de mimetizar o GLP-1, ela simula o GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Na prática, é como se usasse duas vias de acesso para otimizar o metabolismo da glicose e a queima de gordura.

Embora o efeito das canetas varie de pessoa para pessoa, no geral essa “reprogramação” química reduz a quantidade de calorias ingeridas e altera a forma como o cérebro processa a recompensa alimentar. No entanto, isso tem um custo (para além do monetário).

Como as “canetas emagrecedoras” imitam hormônios que retardam o esvaziamento do estômago e enviam sinais de saciedade ao cérebro, os seus efeitos colaterais mais frequentes são de natureza gastrointestinal, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação. 

Pelo menos um em cada três usuários pode apresentar esses sintomas, que geralmente são de intensidade leve a moderada. E tendem a diminuir conforme o corpo se acostuma com a medicação e a dose é ajustada gradualmente pelo médico. Daí a importância do acompanhamento profissional (você vai entender isso melhor no final desta reportagem).

No momento, o mercado de “canetas emagrecedoras” é liderado por duas gigantes farmacêuticas:

  • Novo Nordisk (Dinamarca): Ozempic e Wegovy (semaglutida); Saxenda e Victoza (Liraglutida);
  • Eli Lilly (EUA): Mounjaro e Zepbound (Tirzepatida).

Também vale mencionar a brasileira EMS, que se tornou a primeira empresa a produzir esse tipo de medicamento no Brasil após a queda da patente da liraglutida. Em agosto de 2025, a empresa começou a vender a Olire, caneta à base de liraglutida com preços significativamente menores que os importados.

A próxima geração das ‘canetas emagrecedoras’

Dados do setor indicam que pacientes em tratamento com tirzepatida conseguem perdas de peso que rivalizam com os resultados da cirurgia bariátrica, mas por meio de um método bem menos invasivo. Agora, o desafio tecnológico é tornar essa “chave” mais potente e acessível.

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Se a semaglutida foi o “hack” inicial e a tirzepatida um upgrade de sistema, a próxima geração de fármacos, atualmente em fases avançadas de testes clínicos, promete uma reprogramação completa do metabolismo. 

Estamos entrando na era dos triplos agonistas e das pequenas moléculas orais, tecnologias que pretendem subir o teto da perda de peso e resolver o maior gargalo logístico do setor: a dependência de geladeiras e agulhas.

Retatrutida: A quebra da barreira dos 25%

Um dos nomes que mais ecoa nos congressos médicos é a retatrutida, desenvolvida pela Eli Lilly. Enquanto os medicamentos atuais ativam um ou dois receptores hormonais, esta nova molécula é um “triplo agonista”. Isso porque ela atua no GLP-1 e no GIP; e adiciona um terceiro elemento à equação: o receptor de glucagon.

Imagine um carro tentando subir uma ladeira (perda de peso). O GLP-1 e o GIP tiram o pé do freio (reduzem a fome). Já o glucagon pisa no acelerador (aumenta o gasto energético do organismo e a queima de gordura no fígado).

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Imagem mostra um homem de meias brancas se pesando em uma balança eletrônica
Os resultados preliminares da retatrutida impressionaram: uma redução média de 24,2% do peso corporal em 48 semanas – Imagem: Zigmunds Dizgalvis/Shutterstock

Os resultados preliminares, publicados no New England Journal of Medicine, são impressionantes: uma redução média de 24,2% do peso corporal em 48 semanas. Esse índice praticamente sobrepõe os resultados da cirurgia bariátrica.

“No entanto, isso não significa o fim da cirurgia bariátrica”, apontou o dr. Sérgio Barrichello, cirurgião bariátrico e endoscopista do Hospital Albert Sabin (HAS/SP), em entrevista ao Olhar Digital. “Na prática clínica, estamos observando uma mudança no perfil dos pacientes.”

“Pacientes com obesidade moderada muitas vezes conseguem bons resultados com medicação. Pacientes com obesidade mais grave ou com grande histórico de reganho de peso continuam sendo fortes candidatos à cirurgia”, explicou o cirurgião bariátrico.

A cirurgia [bariátrica] não desaparece. Ela passa a ser mais indicada para casos mais complexos ou resistentes ao tratamento clínico.

Dr. Sérgio Barrichello, cirurgião bariátrico e endoscopista do Hospital Albert Sabin (HAS/SP), em entrevista ao Olhar Digital

Orforglipron e a logística da ‘pequena molécula’

Além da potência, a tecnologia está focada na conveniência e no custo. Atualmente, a semaglutida é um peptídeo (cadeia de aminoácidos), o que a torna frágil. Se ingerida, o ácido do estômago a destrói antes de ela chegar ao sangue. Por isso, a versão oral atual exige jejum rigoroso e tem absorção limitada.

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O orforglipron, também da Eli Lilly, chega para mudar isso. Ele pertence à classe “pequenas moléculas” (compostos químicos sintéticos, não biológicos). Entre as vantagens práticas, estão:

  • Estabilidade térmica: Ao contrário das canetas, que exigem refrigeração constante, o comprimido de orforglipron é estável em temperatura ambiente;
  • Absorção direta: Por ser uma molécula pequena, ela atravessa a parede do intestino com facilidade, o que dispensa as restrições de horário e jejum;
  • Custo de produção: Sintetizar um composto químico é significativamente mais barato do que “cultivar” proteínas biológicas, o que pode ser a chave para levar o tratamento a países em desenvolvimento onde a infraestrutura de refrigeração é precária.

Para a saúde pública, a transição do “injetável caro” para o “comprimido produzido em escala industrial” pode significar a primeira ferramenta real de controle da obesidade em massa. 

Embora ainda não haja um anúncio oficial, a expectativa de analistas e o ritmo dos ensaios clínicos indicam que, se os cronogramas da Anvisa e do FDA seguirem o padrão para drogas que acabam de concluir a fase 3, essa nova onda deve começar a chegar às farmácias entre o final de 2026 e o início de 2027.

Corrida bilionária pela democratização

O dia 20 de março de 2026 marcou a abertura das comportas de um mercado estimado em R$ 15 bilhões no Brasil. 

Com a queda da patente da semaglutida, o país deixou de ser um território de monopólio da dinamarquesa Novo Nordisk para se tornar o epicentro de uma disputa industrial agressiva.

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“O caso da patente da semaglutida no Brasil, que enfrentou um atraso de exame superior a 13 anos antes de sua expiração em março de 2026, serve como um estudo de caso crítico para o nosso ambiente regulatório”, afirmou a Novo Nordisk, em nota ao Olhar Digital.

Pessoa segurando caneta de Ozempic
Com a queda da patente da semaglutida, o Brasil deixou de ser um território de monopólio da Novo Nordisk, fabricante do Ozempic – Imagem: fotogurmespb/Shutterstock

Por que serve como um estudo de caso? Segundo a empresa, por expor fragilidades que comprometem a previsibilidade e a segurança jurídica necessárias para investimentos em ciência e inovação no país.

“A atual jurisprudência brasileira sobre patentes farmacêuticas e biotecnológicas introduz um nível de risco difícil de mitigar”, afirmou a empresa. “Quando a segurança jurídica é comprometida por um escopo de proteção da propriedade intelectual restritivo ou instável, isso pode prejudicar a percepção internacional do Brasil como um destino seguro para investimentos globais em P&D [pesquisa e desenvolvimento].”

No entanto, ao contrário do contexto de medicamentos comuns, no qual a cópia é um processo químico simples, aqui entramos no complexo campo da biotecnologia.

É como se fosse a diferença entre copiar a receita de um bolo simples (medicamento sintético comum) e tentar replicar o comportamento de uma colônia inteira de abelhas para produzir exatamente o mesmo mel (medicamento biológico). 

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A semaglutida é um biossimilar. Isso exige que laboratórios nacionais desenvolvam células vivas capazes de sintetizar a molécula com precisão absoluta, sob rigoroso olhar da Anvisa.

Inclusive, a corrida pelo “Ozempic brasileiro” já conta com competidores de peso e investimentos massivos em infraestrutura. Entre eles, vale citar:

  • EMS: A gigante nacional investiu R$ 1,2 bilhão em sua planta de biotecnologia em Hortolândia (SP), preparando-se para ser a principal fornecedora de versões acessíveis;
  • Biomm: Localizada em Minas Gerais, a empresa foca na produção nacional para reduzir a dependência de importações e a volatilidade do câmbio.

“O país é um importante polo de pesquisa clínica, com 18 estudos conduzidos apenas em 2024, envolvendo mais de 2.700 pacientes”, apontou a Novo Nordisk. “Esse ecossistema permite não apenas gerar conhecimento científico relevante, mas também antecipar o acesso a inovações.”

Atualmente, 16 pedidos de registro para semaglutida e sete pedidos para liraglutida em análise, informou a agência ao Olhar Digital. A expectativa é que as primeiras aprovações ocorram até junho de 2026, com os produtos chegando às prateleiras no segundo semestre.

“Visando à futura produção nacional de medicamentos que simulam o hormônio GLP-1, o Ministério da Saúde solicitou à Anvisa prioridade no registro de medicamentos com os princípios ativos semaglutida e liraglutida, destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2”, informou a pasta, em nota ao Olhar Digital (o texto está disponível na íntegra no final desta reportagem).

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No entanto, a Anvisa tem barrado novos concorrentes, como Plaobes, Lirahyp, Dr. Reddy’s, Gluconex e Tirzedral. Recentemente, o órgão criou grupos de trabalho para ficar de olho nesse novo mercado.

Impacto no bolso e no SUS

A consequência mais direta da concorrência é a queda nos preços. “Em média, estudos apontam que os genéricos induzem uma queda de 30% nos preços”, informou o Ministério da Saúde, em nota ao Olhar Digital (que você confere na íntegra no final desta reportagem). “Esse é um fator determinante para a análise de uma possível incorporação ao SUS.”

O Rio de Janeiro (RJ) saiu na frente com um projeto-piloto para oferecer o medicamento na rede municipal, focado em pacientes com obesidade grave e comorbidades.

No entanto, existe um dilema orçamentário. Num lado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) calcula que a oferta nacional poderia custar R$ 8 bilhões por ano (valor representa quase o dobro do orçamento do Programa Farmácia Popular em 2025, segundo a pasta).

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“No SUS, o cuidado à pessoa com obesidade começa nas Unidades Básicas de Saúde (UBS)”, segundo o Ministério da Saúde. “Nesses espaços, profissionais como nutricionistas e psicólogos das equipes multiprofissionais acompanham a população, com encaminhamento para serviços especializados – como a cirurgia bariátrica – quando necessário.”

Por isso, especialistas apontam o potencial de economia no longo prazo ao se incorporar “canetas emagrecedoras” no SUS: tratar a obesidade hoje evita gastos bilionários amanhã com hemodiálise, cirurgias cardíacas e internações por diabetes descontrolada.

O ‘Cavalo de Troia” do mercado farmacêutico

A combinação de alta demanda, preços elevados e a promessa do “corpo perfeito” criou o cenário ideal para o que as autoridades de segurança já classificam como um “faroeste” digital. 

O mercado paralelo dessas medicações é um campo minado no qual o consumidor, ao tentar economizar algumas centenas de reais, pode acabar pagando com a vida.

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caneta emagrecedora
Combinação de fatores relacionados às “canetas emagrecedoras” criou o cenário ideal para o que as autoridades de segurança descreveram como “faroeste” digital – Imagem: MillaF/Shutterstock

Recentemente, a Anvisa e a Polícia Civil intensificaram as investigações sobre o “golpe da troca”, segundo o programa Fantástico, da TV Globo. Nele, criminosos adquirem canetas originais, retiram o lacre, substituem o conteúdo por substâncias desconhecidas (muitas vezes insulina de baixa qualidade) e revendem o produto em marketplaces e redes sociais. 

O resultado é trágico: casos de hipoglicemia grave levaram pacientes diretamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

No começo de abril, a Anvisa anunciou um endurecimento nas regras para coibir o crescimento irregular da manipulação de insumos para “canetas emagrecedoras” e a venda ilegal de produtos sem registro. A agência publicou novas diretrizes para a importação desses fármacos para organizar o fluxo de entrada no país.

Como identificar uma ‘caneta emagrecedora’ falsa

A farmacêutica Novo Nordisk e a Anvisa apontam sinais de que você está diante de um produto falsificado:

  • Seletor de dose: Na caneta original, ao girar o seletor, ele deve ser suave e exibir números precisos. Canetas falsas costumam ter seletores endurecidos ou que não travam na dose correta;
  • Adesivo de “Nova Fórmula”: Este é o maior sinal de alerta. A fórmula da semaglutida não mudou desde o lançamento. Qualquer embalagem com adesivos colados por cima alegando “atualização” ou “fórmula potencializada” é falsa;
  • Idioma e embalagem: Desconfie de caixas com erros de português, instruções apenas em idiomas estrangeiros ou sem o número do lote e data de validade impressos de forma clara na lateral;
  • Preço milagroso: Medicamentos biológicos seguem a tabela da CMED (órgão federal). Se o valor estiver muito abaixo da média de mercado, a probabilidade de fraude é altíssima.

Sarcopenia e pancreatite: Os riscos do uso ‘estético’

Mesmo quando o medicamento é original, o uso sem acompanhamento médico traz perigos biológicos silenciosos. O mais comum é a sarcopenia, isto é, a perda acelerada de massa magra. 

O resultado é um indivíduo com peso menor, mas com metabolismo destruído e fragilidade física severa, explicou o dr. Drauzio Varella em seu canal no YouTube.

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Um alerta emitido pela Anvisa em 9 de fevereiro de 2026 destacou o aumento nos casos de investigação de pancreatite associada ao uso indiscriminado. Lembra que o medicamento retarda o esvaziamento gástrico? Então, se o sistema não for monitorado, o pâncreas pode sofrer uma inflamação aguda que, em casos extremos, é fatal.

A tecnologia das canetas é uma ferramenta poderosa. Mas como qualquer hardware sofisticado, se for operada sem o manual (a prescrição médica) e sem as atualizações de segurança (exames laboratoriais), pode colapsar.

Fim do estigma da ‘falta de vontade’

Além do preço das canetas e da complexidade das moléculas envolvidas, uma grande barreira para o sucesso no tratamento da obesidade no Brasil é um equívoco conceitual: a ideia de que o excesso de peso é uma falha de caráter ou “falta de vontade”.

“A obesidade é considerada uma doença crônica, semelhante à hipertensão ou diabetes”, disse o dr. Sérgio Barrichello. E a ciência moderna, consolidada por entidades como a SBEM, é categórica: a obesidade também é uma doença progressiva e recidiva (que volta a aparecer).

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Canetas emagrecedoras Ozempic entrelaçadas em uma fita métrica
Preço de canetas de medicamentos como Ozempic e a complexidade das moléculas envolvidas não são as únicas barreiras para o sucesso no tratamento da obesidade no Brasil – Imagem: Edugrafo/Shutterstock

Afinal, por que é tão difícil perder peso e manter o peso após emagrecer? 

Pense que o nosso corpo possui um “termostato biológico”. Quando uma pessoa atinge um peso elevado e o mantém por muito tempo, o organismo entende aquele patamar como o novo “normal”. 

Ao iniciar uma dieta ou o uso de medicamentos, o corpo interpreta a perda de gordura como uma ameaça à sobrevivência e dispara mecanismos de defesa para recuperar o estoque de energia. Isso aumenta a fome e reduz o metabolismo basal (a “taxa mínima” de energia gasta pelo seu corpo para te manter vivo).

Não à toa, um dos maiores receios dos pacientes é o chamado efeito rebote após a interrupção do uso da semaglutida ou tirzepatida. 

Assim como a hipertensão ou o diabetes, “o tratamento [contra obesidade] geralmente precisa ser mantido ao longo do tempo”, disse o cirurgião bariátrico. Em muitos casos, a medicação é uma ferramenta de controle que pode precisar de doses de manutenção.

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Ou seja, o medicamento funciona como um “patch” de correção de hardware. Mas a sustentabilidade do resultado depende da atualização do “sistema operacional” do paciente. Isso envolve, por exemplo: reeducação alimentar, higiene do sono e atividade física regular para preservar a massa magra.

A democratização do acesso às “canetas emagrecedoras”, impulsionada pela queda das patentes, é o primeiro passo para que o Brasil enfrente o que já é considerado uma das epidemias do século 21. 

Pela primeira vez, existe uma chance real de “resetar” o termostato biológico de milhões de brasileiros. Mas o foco precisa sair do ponteiro da balança e ir para a saúde do metabolismo.

(O Olhar Digital também contatou a Eli Lilly, que respondeu: “não conseguimos atender à pauta devido aos processos internos de aprovação”.)

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Nota do Ministério da Saúde

“Visando à futura produção nacional de medicamentos que simulam o hormônio GLP-1, o Ministério da Saúde solicitou à Anvisa prioridade no registro de medicamentos com os princípios ativos semaglutida e liraglutida, destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Com a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e o aumento da concorrência, os preços devem cair de forma significativa. Em média, estudos apontam que os genéricos induzem uma queda de 30% nos preços. Esse é um fator determinante para a análise de uma possível incorporação ao SUS. No ano passado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) deu parecer desfavorável à incorporação dos princípios ativos semaglutida e liraglutida, considerando, entre outras razões, o impacto orçamentário superior a R$ 8 bilhões. Esse valor representa quase o dobro do orçamento do Programa Farmácia Popular em 2025.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda a quebra de patentes ou o licenciamento compulsório para medicamentos como as canetas emagrecedoras, defendendo a redução de preços e a ampliação do acesso. O Ministério da Saúde atua em conformidade com a legislação nacional e com tratados internacionais, como o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS).

No SUS, o cuidado à pessoa com obesidade começa nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Nesses espaços, profissionais como nutricionistas e psicólogos das equipes multiprofissionais (eMulti) acompanham a população, com encaminhamento para serviços especializados – como a cirurgia bariátrica – quando necessário. O Ministério da Saúde também investe em ações preventivas, como o Guia Alimentar para a População Brasileira, o Programa Academia da Saúde e o Programa Saúde na Escola, que estimulam hábitos saudáveis desde a infância.“

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Caso Hugging Face: agentes de IA da OpenAI tentaram enganar detector de robôs durante ataque à plataforma

Redação Informe ES

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Agentes de inteligência artificial (IA) da OpenAI tentaram usar outro modelo de IA para burlar um sistema de detecção de robôs enquanto repetidamente buscavam maneiras de invadir os computadores da plataforma Hugging Face.

Os detalhes aparecem em novo relatório elaborado por engenheiros da startup estadunidense Parse e outros pesquisadores, que analisaram a atividade dos agentes durante o ataque divulgado pela OpenAI em julho.

A investigação encontrou quase um milhão de links encurtados criados pelos agentes entre 9 e 13 de julho. Os endereços continham partes de informações usadas para montar ataques complexos, incluindo tentativas de solucionar CAPTCHAs — testes criados para impedir o acesso automatizado a sites.

Os agentes também recorreram a outros modelos de IA, incluindo versões antigas do ChatGPT e do Claude, e tentaram procurar e baixar mensagens privadas do Slack interno da Hugging Face.

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Não está claro se todas essas tentativas foram bem-sucedidas. Os pesquisadores conseguiram observar os programas criados pelos agentes, mas não os resultados das ações.

Agentes criaram método para contornar restrições

Segundo o relatório, os agentes deveriam permanecer isolados em um ambiente de testes, conhecido como sandbox, sem acesso à internet.

No fim de maio e novamente no início de julho, porém, eles invadiram uma ferramenta de instalação de software sem que os pesquisadores da OpenAI percebessem o que estava acontecendo.

As invasões permitiram que os agentes acessassem a internet e criassem um sistema de mensagens para se comunicar entre si. O acesso, inicialmente, ainda tinha uma limitação: eles conseguiam chegar aos sites, mas não podiam enviar dados de volta para eles. Para contornar o problema, os agentes combinaram diferentes serviços disponíveis na internet.

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O método funcionava da seguinte maneira:

  • Os agentes pediam a um serviço público de captura de telas que carregasse um endereço de internet especialmente criado;
  • Como os URLs têm limite de tamanho, o código era dividido em vários pedaços menores;
  • Os agentes utilizavam serviços de encurtamento de links para armazenar esses endereços;
  • O serviço de captura de tela carregava um link, que buscava o primeiro pedaço do código;
  • O processo se repetia com os links seguintes até que todo o programa fosse carregado e executado;
  • Por fim, o programa criava uma imagem semelhante a um QR Code ou código de barras para transmitir de volta os dados que os agentes precisavam.

“Esses agentes fizeram muita coisa. Eles foram muito inteligentes. Os modelos pensaram: ‘Tudo bem, temos esse encurtador de links, temos esses serviços de captura de tela, sem problema, estamos prontos para agir’”, afirmou Jeffrey Ladish, diretor-executivo da organização de segurança de IA Palisade Research, que ajudou na investigação, ao The New York Times.

IA tentou executar outras IAs

Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a tentativa dos agentes de utilizar outros sistemas de IA.

No início do ataque, os agentes tentaram criar novas contas na Hugging Face. Como a plataforma exige a resolução de um CAPTCHA para isso, os agentes utilizaram um modelo de IA especializado em reconhecimento de imagens para tentar superar o teste.

Os pesquisadores também observaram os agentes tentando enviar mensagens para outros modelos de IA.

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Entre eles estavam o GPT-2, um modelo antigo da própria OpenAI, além dos modelos chineses de código aberto DeepSeek, Kimi e Qwen. Os agentes também tentaram enviar mensagens para os modelos Haiku 3 e Haiku 4.5, da Anthropic, por meio de um serviço de chat on-line.

“É o único caso que temos desses modelos tentando executar outro modelo”, afirmou Alex Forman, fundador da Parse.

A possibilidade de sistemas de IA acionarem outros modelos é uma preocupação recorrente entre especialistas em segurança, porque isso poderia dificultar tentativas humanas de controlar ou desligar sistemas que apresentassem comportamentos indesejados.

Quase um milhão de links revelam extensão do ataque

Os pesquisadores analisaram o conteúdo de 900 mil URLs encurtados encontrados na internet e, a partir deles, conseguiram reconstruir cerca de 60 mil programas e mensagens criados pelos agentes durante o ataque à Hugging Face.

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Como os pesquisadores não tinham acesso aos resultados das ações, não foi possível determinar com certeza quantas das tentativas funcionaram.

Um dos elementos encontrados chamou particularmente a atenção: um dicionário de chaves secretas de acesso identificado pelo agente com a palavra “LOOT”, em letras maiúsculas.

Segundo Mishka Kharlov, engenheiro fundador da Parse, o agente também criou um sistema próprio de pontuação para classificar credenciais e chaves expostas da Hugging Face e levar as cinco consideradas mais importantes de volta aos demais agentes.

Enquanto atacavam a Hugging Face, os agentes também conseguiram invadir a própria infraestrutura de pesquisa da OpenAI.

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Logo da OpenAI na tela de um smartphone
Enquanto atacavam a Hugging Face, os agentes também conseguiram invadir a própria infraestrutura de pesquisa da OpenAI – Imagem: Camilo Concha/Shutterstock

“Basicamente, ainda não sabemos nada sobre o incidente que veio depois do caso da Hugging Face, cerca de dois dias depois, dentro da própria rede da OpenAI”, afirmou Forman.

Os engenheiros da Parse compartilharam as descobertas com a Hugging Face, que confirmou que a atividade identificada correspondia ao comportamento observado pela própria empresa.

Leia mais:

  • Sem ninguém mandar: IA da OpenAI tentou invadir sites de universidade e governo
  • Google, OpenAI e Anthropic se unem para criar órgão de segurança para inteligência artificial
  • Aconteceu de novo! OpenAI admite que agentes de IA vazaram mais de 50 imagens de usuários do ChatGPT na internet

OpenAI ainda investiga dezenas de incidentes

O caso da Hugging Face faz parte de uma investigação mais ampla da OpenAI sobre atividades não autorizadas realizadas por seus agentes.

Segundo a empresa, a revisão deverá levar meses devido à quantidade de casos e à necessidade de verificar cada incidente. A OpenAI afirmou que já notificou dezenas de terceiros sobre atividades inadequadas.

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Neste mês, uma pessoa informada sobre a investigação estimava que a empresa havia encontrado aproximadamente duas dezenas de incidentes envolvendo agentes que apresentaram comportamentos indesejados. O número continuou crescendo conforme as equipes analisavam registros internos e encontravam casos anteriormente desconhecidos.

Mais de 15 episódios relacionados aos agentes da OpenAI já haviam sido divulgados nos dois meses seguintes ao anúncio do ataque à Hugging Face. Os casos variam desde mensagens semelhantes a spam deixadas em sites até invasões e acessos não autorizados.

Outros episódios envolveram um site alemão transformado pelos agentes em um espaço para compartilhar táticas e contornar restrições da OpenAI, além de atividades contra o site do Australian Institute of Health and Welfare.

A OpenAI também confirmou que seus agentes tiveram como alvo a própria infraestrutura da companhia.

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Investigação da OpenAI é alvo de questionamentos

O processo interno para entender o ataque à Hugging Face envolveu cerca de 100 pessoas, segundo fontes ouvidas pela Reuters.

Duas pessoas familiarizadas com a investigação disseram à agência que o processo foi mantido sob forte controle e influenciado pelos advogados da companhia. A OpenAI, por sua vez, afirmou que seus advogados não impediram uma investigação mais ampla.

A Reuters também informou que muitos dos incidentes foram descobertos por pesquisadores externos, e não diretamente pela OpenAI. Em alguns casos, as ações dos agentes permaneceram sem conhecimento da empresa durante meses.

Em comunicado, uma porta-voz da OpenAI afirmou que a atividade descrita pelos pesquisadores da Parse é compatível com o que a companhia já estava investigando.

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“Estamos priorizando a análise dos incidentes mais graves enquanto ampliamos a investigação para atividades de menor gravidade, incluindo agentes enviando spam para sites. Dado o número de casos e a necessidade de verificar cada um deles, esperamos que esse trabalho e as notificações às partes afetadas levem meses.”

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Lembra do Tamagotchi? Meta trabalha em dispositivo equipado com IA para usar o Muse

Redação Informe ES

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A Meta está desenvolvendo um dispositivo de hardware dedicado para seu novo agente de inteligência artificial (IA), o Muse. Chamado de Muse Charm, o aparelho foi apresentado rapidamente pelo CEO da empresa, Mark Zuckerberg, no fim de sua apresentação durante o Meta Connect, nesta quarta-feira (23).

O dispositivo lembra uma espécie de Tamagotchi moderno, mas com formato mais robusto. Ele se parece com um relógio inteligente sem pulseira, com uma tela grande e uma pequena alça que permite carregá-lo. Uma das principais características do Muse Charm é que ele não exige um celular para ser utilizado.

Como funciona o Muse Charm

  • O aparelho tem um sensor de impressão digital no canto superior direito. Ao pressioná-lo, o usuário poderá ativar o dispositivo e começar a conversar com o agente de IA;
  • Também é possível identificar uma pequena câmera no aparelho, além do que parecem ser pelo menos três orifícios para microfones na parte frontal;
  • Durante a apresentação, Zuckerberg afirmou que o usuário não precisará desbloquear o celular nem abrir um aplicativo para utilizar o Muse Charm;
  • O CEO, porém, não explicou como o dispositivo se conectará aos servidores da Meta para processar as interações com o agente de IA.
Tamagotchi clássico
Este é o famoso Tamagotchi… não são parecidos? – Imagem: Mehaniq/Shutterstock

Meta quer lançar o aparelho ainda este ano

A Meta pretende colocar o Muse Charm à venda a tempo das festas de fim de ano, em dezembro.

O desenvolvimento do dispositivo ainda está em estágio inicial. Segundo Zuckerberg, a empresa construiu apenas algumas unidades até o momento. A Meta também ainda precisa definir o material de acabamento do produto.

Durante a apresentação, Zuckerberg deu algumas pistas sobre a aparência planejada para o dispositivo. Ele mencionou repetidamente a possibilidade de uma carcaça translúcida, que permitiria visualizar os componentes internos do aparelho.

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O executivo descreveu essa estética como um “visual hacker elevado”. Zuckerberg prometeu divulgar mais detalhes sobre o Muse Charm “em breve”.

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Câmeras e microfones em óculos com IA geram reação global e podem ameaçar futuro de novos dispositivos inteligentes

Redação Informe ES

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Empresas de tecnologia apostam em óculos inteligentes e outros dispositivos equipados com inteligência artificial (IA) como possíveis sucessores dos smartphones, mas uma velha preocupação pode dificultar essa transição: a privacidade.

Os dispositivos conseguem observar, ouvir e responder ao ambiente ao redor do usuário, recursos que podem torná-los mais úteis, mas também aumentam o risco de registrar pessoas que nunca autorizaram a captura de suas imagens ou vozes.

A reação negativa tem sido particularmente forte em relação aos óculos inteligentes da Meta, que combinam o formato tradicional de óculos da EssilorLuxottica com recursos de IA. Os produtos passaram a enfrentar processos judiciais, preocupações de usuários com gravações sem consentimento e restrições de uso em alguns estabelecimentos no Reino Unido.

Segundo a Reuters, empresas, como Samsung, OpenAI e startups, estão testando diferentes formatos e soluções para tentar superar esse obstáculo. As alternativas incluem óculos sem câmera, gravadores que exigem ativação manual e processamento de dados diretamente no dispositivo.

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Meta enfrenta reação aos óculos com IA

  • Os óculos inteligentes da Meta se tornaram um dos principais exemplos da tensão entre utilidade e privacidade;
  • A preocupação aumentou após acusações apresentadas em processos judiciais envolvendo a Meta e a Luxottica of America. Uma das ações afirma que gravações capturadas pelos óculos teriam sido enviadas aos servidores da Meta e posteriormente visualizadas e classificadas por funcionários responsáveis pelo treinamento dos sistemas de IA;
  • Segundo a acusação, entre as imagens analisadas estavam registros de pessoas trocando de roupa, usando banheiros e lidando com informações financeiras. As pessoas filmadas, segundo a alegação, muitas vezes não sabiam que estavam sendo gravadas;
  • Ryan Clarkson, advogado que representa consumidores no processo, afirmou à Reuters que não seria razoável esperar que usuários que receberam promessas de privacidade imaginassem que os dispositivos poderiam registrar momentos tão particulares, de maneira intencional ou acidental;
  • A Meta contesta as alegações. A empresa afirma que uma luz que não pode ser desligada durante a gravação serve para indicar às pessoas próximas que a câmera está ativa. Segundo a companhia, a câmera também é desativada caso essa luz seja coberta ou sofra alguma tentativa de adulteração;
  • A empresa acrescentou que a análise de dados de usuários para melhorar produtos é uma prática comum no setor e que utiliza filtros para remover informações que possam identificar pessoas.

Samsung aposta em parcerias

A Samsung também pretende entrar no mercado de óculos inteligentes, mas adota estratégia diferente da ideia de substituir o smartphone. A empresa planeja lançar seus óculos ainda neste ano em parceria com as marcas Gentle Monster e Warby Parker.

Jay Kim, vice-presidente executivo da divisão móvel da Samsung, afirmou à Reuters que os formatos vencedores serão aqueles que tornarem a interação com a tecnologia mais natural, útil e confiável. À medida que a IA assume mais tarefas, segundo ele, os usuários vão exigir sistemas que permaneçam seguros e sob seu controle.

Visão de Sam Altman envolve processamento local

A OpenAI também trabalha com a possibilidade de dispositivos capazes de acompanhar continuamente o ambiente ao redor do usuário.

Em conversa com jornalistas em dezembro, o CEO da empresa, Sam Altman, descreveu a visão de um aparelho que pudesse compreender o contexto do usuário e saber quando ajudar e quando permanecer em silêncio.

Para Altman, dispositivos desse tipo precisariam, em algum momento, processar os dados localmente em vez de enviar continuamente as informações para a nuvem. “Você quer um dispositivo em que possa confiar… que tenha todo o contexto e saiba quando ser útil e quando não ser”, afirmou.

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Ele também disse que, se um aparelho estiver ouvindo e observando a vida inteira do usuário, a maioria das pessoas não vai querer que essas informações sejam processadas em um servidor na nuvem.

Altman afirmou que a adoção desse tipo de processamento local pode levar alguns anos a mais, dependendo da velocidade com que a OpenAI conseguir ampliar sua capacidade de processamento.

Startups eliminam câmeras

Enquanto grandes empresas buscam maneiras de lidar com o problema, algumas startups estão apostando em produtos que simplesmente eliminam as câmeras.

A Even Realities, fundada em Shenzhen (China) por Will Wang, ex-engenheiro da Apple, lançou em 2024 os óculos G1 sem câmera. O modelo G2 chegou ao mercado em novembro de 2025.

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Wang afirmou à Reuters que os consumidores passaram a associar cada vez mais os óculos inteligentes à possibilidade de gravações ocultas. Para ele, as câmeras deveriam esperar até que as empresas consigam oferecer mecanismos de proteção mais fortes.

A companhia, avaliada em US$ 1 bilhão (R$ 5,12 bilhões) em julho, espera terminar o ano com algumas centenas de milhares de usuários. Segundo Wang, cerca de 90% das vendas são destinadas a consumidores.

Homem usando modelo de óculos inteligentes desenvolvido pela Meta em parceria com a Ray-Ban
Óculos inteligentes desenvolvidos pela Meta em parceria com a Ray-Ban; Empresa de Mark Zuckerberg é uma das que enfrentam processos judiciais relacionados a seus óculos inteligentes – Imagem: Alexander Fedosov/Shutterstock

Outra aposta vem da startup americana Pocket, que desenvolveu um gravador conectado ao celular e que exige que o usuário pressione um botão para registrar conversas.

A ideia é tornar a gravação mais deliberada e visível, de maneira semelhante ao uso da câmera de um smartphone. A empresa afirma que aproximadamente 170 mil dispositivos Pocket estavam em uso oito meses após o lançamento, inclusive por funcionários de empresas, como DoorDash, Michelin e Santander.

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A Plaud, por sua vez, vende gravadores de IA em formato de cartão e dispositivos vestíveis. A empresa também colocou a privacidade no centro de seus produtos.

O Plaud One Explorer Edition, que custa US$ 249,99 (R$ 1.279,95), combina fone de ouvido e estojo e só realiza gravações quando ativado. O dispositivo também alerta pessoas próximas por meio de luzes ou de um aviso sonoro.

A empresa afirma ter 2,5 milhões de usuários e mais de US$ 100 milhões (R$ 512 milhões) em receita recorrente anual.

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Privacidade pode decidir futuro dos dispositivos de IA

Para especialistas ouvidos pela Reuters, a discussão não significa necessariamente que as pessoas sejam contra dispositivos capazes de gravar áudio ou vídeo. O principal desafio está em garantir que elas saibam quando estão sendo registradas e tenham mecanismos claros de consentimento.

Jitesh Ubrani, diretor da consultoria IDC, comparou a situação às preocupações que surgiram quando câmeras e microfones passaram a se tornar comuns nos smartphones. Segundo ele, a sociedade precisa garantir que exista consentimento e consciência quando alguém estiver sendo gravado. Isso, porém, é diferente de simplesmente ser contra a gravação.

A disputa pela confiança do público pode ser decisiva para um mercado que as empresas de tecnologia enxergam como possível próxima grande plataforma de computação. Quanto mais úteis forem os dispositivos de IA, maior tende a ser a quantidade de informações que eles precisam coletar do ambiente.

Ao mesmo tempo, justamente os recursos que podem torná-los mais úteis — como câmeras e microfones sempre ativos e a capacidade de compreender o que acontece ao redor — também podem se transformar no principal obstáculo para sua adoção.

O post Câmeras e microfones em óculos com IA geram reação global e podem ameaçar futuro de novos dispositivos inteligentes apareceu primeiro em Olhar Digital.

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