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O Caminho até a Cabine: Quanto Ganha e Como Se Tornar Piloto de Avião

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Vestir o uniforme, assumir o controle de uma máquina de dezenas de toneladas e ter o mundo como escritório é o desejo de milhões de pessoas. Não por acaso, a profissão de piloto de avião lidera o ranking global de empregos dos sonhos, elaborado pela plataforma de currículos Resume.io. “Sempre sonhei em ser piloto e me lembro até hoje da emoção de me tornar comandante aos 28 anos”, diz Audrey Savini, hoje no comando do A320 da Azul.
O cenário para quem quer investir nessa carreira é convidativo. Impulsionado por volumes recordes de passageiros – 130 milhões de viajantes em aeroportos brasileiros em 2025 –, o mercado aéreo nacional vive um período de aquecimento. “Somente na LATAM, o número de pilotos dobrou nos últimos dois anos e abrimos recentemente mais de 300 vagas”, diz Sandro Silva, piloto-chefe da companhia aérea.
No entanto, o glamour dos aeroportos cobra seu pedágio. O caminho até a cabine de comando envolve centenas de horas de voo, treinamentos rigorosos, fluência no inglês e adaptação a uma dinâmica de trabalho fora do horário comercial. “É uma rotina intensa e pouco convencional. O trabalho organizado por escala pode incluir madrugadas, fins de semana, feriados e pernoites fora de casa”, afirma Lucas Fogaça, coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas da PUCRS. “Como formar um piloto recém-chegado custa caro, as empresas tendem a valorizar candidatos com melhor base técnica, inglês forte e mais horas de voo no cenário atual.”
No quesito remuneração, um piloto de avião comercial pode ter salários líquidos que variam de R$ 7 mil a R$ 20 mil por mês, podendo superar esse patamar em rotas internacionais, segundo o professor da PUCRS. Somam-se a isso benefícios como diárias de alimentação e passagens com desconto para a família.
A seguir, os especialistas detalham os caminhos necessários até a cabine de comando, explicam como funciona a rotina de um piloto comercial e dão conselhos para quem quer dar o primeiro passo na carreira:
Forbes: Qual a formação necessária para se tornar piloto de avião?
Audrey Savini: Não é obrigatório ter curso superior. A formação é regulamentada pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) e feita por meio de cursos técnicos. Existe uma sequência obrigatória: inicialmente, o aluno realiza o curso de Piloto Privado (PP) e, posteriormente, o de Piloto Comercial (PC). Hoje, a parte teórica pode ser feita tanto presencialmente quanto online.
Para quem pretende seguir carreira na aviação comercial, também são exigidos cursos adicionais, como Multimotor, Voo por Instrumentos (IFR) e o Jet Training, que é um simulador de aeronave a jato. Esses cursos garantem o mínimo de habilitações exigidas pela ANAC para atuação profissional.
Mesmo sem ser obrigatórias, as formações em cursos superiores de Ciências Aeronáuticas ou Aviação Civil são importantes no mercado de trabalho?
Lucas Fogaça: Elas acrescentam muito peso ao currículo e qualificam a atuação. Em um bom curso de Ciências Aeronáuticas, o aluno estuda temas que vão muito além da operação da aeronave. Essa combinação ajuda a formar um profissional mais completo, capaz de compreender a aviação como integrante de um sistema complexo. Isso embasa tomadas de decisão abarcando aspectos técnicos, operacionais, gerenciais e comerciais.
Como funciona a parte prática? Quais são os testes e provas obrigatórios?
Audrey Savini: Normalmente, o aluno inicia pela parte teórica. Antes de começar os voos práticos, é obrigatório obter o Certificado Médico Aeronáutico (CMA), realizado em clínicas credenciadas. Para pilotos comerciais, o CMA deve ser renovado anualmente. Sem isso, nenhuma hora de voo prática é legalmente válida.
Lucas Fogaça: Com o CMA em mãos, a formação prática acontece em aeronaves de pequeno porte. O aluno começa com manobras básicas e navegações, avançando até as avaliações práticas. Ao final de cada etapa principal, há um exame de proficiência.
Quantas horas de voo são exigidas para se tornar piloto privado e comercial?
Audrey Savini: A instrução prática é baseada em horas de voo, semelhante ao processo de uma autoescola. Cada voo corresponde a uma missão: decolar, manter voo nivelado, realizar curvas e pousos. Para piloto privado, são em média entre 40 e 50 horas. Já para piloto comercial, aproximadamente 150 horas de voo.
Qual a importância da proficiência em inglês nessa carreira?
Lucas Fogaça: O inglês tem peso real. É a língua dos manuais, de boa parte dos sistemas e da comunicação operacional. No Brasil, a proficiência é avaliada segundo os critérios da OACI (Organização da Aviação Civil Internacional) – nível 4 é o mínimo –, mas na prática, o mercado valoriza quem vai além.
Quais soft skills são essenciais na profissão?
Audrey Savini: A tomada de decisão é uma das mais importantes. Você precisa ter embasamento e controle emocional, porque o piloto atua simultaneamente com máquinas e pessoas. Hoje, as companhias avaliam isso desde o simulador com o modelo EBT (Evidence-Based Training), que testa como o piloto gere recursos em situações de crise. Em cabines altamente automatizadas, o piloto moderno precisa ser tão forte no julgamento e na coordenação quanto no domínio técnico da aeronave. Lucas Fogaça
Qual a faixa salarial de um piloto hoje no Brasil?
Lucas Fogaça: A remuneração varia bastante conforme a companhia, equipamento e senioridade, mas em linhas gerais vai de R$ 7 mil a R$ 20 mil líquidos, podendo chegar a mais em rotas internacionais.
Quais os benefícios oferecidos pelas companhias aéreas?
Audrey Savini: Além da remuneração fixa, há diversos benefícios que aumentam o pacote total: diárias pagas nos períodos fora da base para alimentação, plano de saúde e passagens com desconto, que podem se estender ao cônjuge e aos filhos.
Como é a rotina de um piloto de avião?
Audrey Savini: Trabalhamos com escalas mensais. Ao final de cada mês, recebemos a programação do mês seguinte. Podemos permanecer fora da nossa base por até seis dias consecutivos, realizando voos e pernoitando em diferentes cidades. Em voos nacionais, chegamos a cumprir cerca de seis etapas (trechos) por dia, respeitando os limites regulamentares.
Como funcionam as refeições no dia a dia de trabalho?
Audrey Savini: Durante a fase de cruzeiro — quando o avião está estabilizado e, geralmente, na programação do piloto automático — fazemos as refeições na cabine, sem deixar nossas funções. Se estou em um voo que abrange manhã ou tarde, recebo o café da manhã. Se for horário do almoço ou jantar, é servida uma refeição com opções como massa ou frango.
O comandante e o copiloto nunca consomem a mesma refeição. O mesmo vale para a tripulação de cabine. Isso é para evitar uma eventual contaminação alimentar. Além disso, há opções vegetarianas disponíveis para quem precisar.
Em voos muito longos, os pilotos podem dormir?
Audrey Savini: Em um voo como Campinas–Lisboa, com cerca de 11 horas de duração, por exemplo, há um esquema de revezamento. O tempo de descanso é dividido entre os pilotos e ocorre de forma alternada: nos casos de tripulação composta (com três pilotos), descansa um piloto por vez; já nos de revezamento (com quatro pilotos), pode haver até dois pilotos em descanso simultaneamente. Nessa configuração, a jornada pode chegar a até 18 horas. As aeronaves contam com compartimentos com camas horizontais, isoladas por cortinas.
Como funcionam as folgas e férias?
Lucas Fogaça: A Lei do Aeronauta estabelece um mínimo de 10 folgas mensais na aviação regular, além de férias anuais de 30 dias.
Audrey Savini: As empresas disponibilizam sistemas para indicar preferências de escala. O piloto pode solicitar, com antecedência, folgas em datas importantes, como aniversários e casamentos.
Como pilotos gerenciam a fadiga e os efeitos do jet lag?
Audrey Savini: As companhias aéreas contam com sistemas internos de gerenciamento de fadiga e a própria regulamentação prevê períodos mínimos de descanso de acordo com a quantidade de fusos horários cruzados. Em casos de três ou mais fusos, esse descanso pode variar entre 36 e até 120 horas.
Esse tempo é essencial para a recuperação do organismo, permitindo a aclimatação. Em termos simples, o jet lag ocorre quando o corpo perde a referência natural de dia e noite. Os períodos de descanso em casa são fundamentais para garantir a recuperação adequada.
Na prática, o que diferencia as funções de comandante e copiloto na cabine?
Lucas Fogaça: Os dois são treinados para operar a aeronave com segurança. O copiloto não é um “auxiliar”, mas um profissional plenamente habilitado que participa ativamente da condução do voo.
Audrey Savini: Comandante e copiloto passam pelo mesmo treinamento. A principal diferença está na tomada de decisão: o comandante é a autoridade final a bordo, com a palavra decisiva em situações críticas, embora o trabalho seja essencialmente colaborativo.
Como funciona a progressão de carreira para se tornar comandante?
Sandro Silva: O profissional inicia na companhia como copiloto de aeronaves menores (Narrow Body), como o Airbus, depois pode ser promovido a copiloto de aviões maiores de voos de longo curso (Wide Body), até fazer a transição para comandante.

Audrey Savini: Essa progressão depende de tempo de experiência e proficiência contínua. A senioridade funciona como uma “fila”: os copilotos mais antigos tendem a ser promovidos primeiro. Quando elegível, o piloto passa por uma bateria de avaliações: testes psicotécnicos, provas teóricas específicas, avaliações em simulador e instrução em rota. É um processo que leva de quatro a seis meses.
Diante dos avanços tecnológicos, como o papel do piloto deve se transformar nos próximos anos?
Lucas Fogaça: A automação aumentou a eficiência, mas não eliminou a importância humana. O papel mudou: hoje ele é, cada vez mais, um gestor de sistemas, risco e decisão em tempo real. O futuro tende a ampliar a automação, mas, por enquanto, a presença de dois pilotos bem treinados continua sendo o padrão mais seguro da aviação.
Qual o principal conselho para quem quer seguir essa carreira?
Audrey Savini: O conselho é: faça. Falo por experiência própria. Sempre sonhei em ser piloto e lembro até hoje da emoção de me tornar comandante aos 28 anos. Se houver momentos difíceis, não desista, retome o foco e continue. Passamos grande parte da vida trabalhando, então buscar uma profissão que traga realização faz toda a diferença para o seu bem-estar e equilíbrio.
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Depois de 20 anos de carreira, Maisa olha para o futuro: “meu combustível são os novos desafios”

Maisa conhece a fama desde os três anos de idade. Cresceu diante das câmeras e aos olhos de milhões de espectadores. Aos 24 anos, a “prima” dos brasileiros já acumula duas décadas de carreira e uma trajetória multifacetada: atua como atriz, apresentadora, dubladora, influenciadora e empresária.
À frente da Mudah, agência de marketing de influência que cofundou em 2020, gere talentos e atende clientes como Netflix e O Boticário. Nas telas, retorna aos cinemas nesta semana dando voz à antagonista Lilypad, em “Toy Story 5”.
A todo vapor, ela ainda quer muito mais. “Meu combustível são os novos desafios. Estou sempre aberta para eles”, diz em entrevista ao ForbesTalk, programa de videocast da Forbes Brasil. “Abraço como se fosse a coisa mais importante da minha vida, porque no final das contas, é.”
O início de Maisa na TV
Reconhecida por 96% da população brasileira, segundo uma pesquisa da consultoria Ilumeo Data Science, Maisa relembra sua estreia inusitada na TV. Com apenas três anos, pediu aos pais para conhecer o apresentador Raul Gil.
Durante um teste para o programa, enquanto as outras crianças faziam coreografias ou apresentações ensaiadas, improvisou uma dança e acabou aprovada como assistente de palco. Pouco depois, seu jeito espontâneo e comunicativo chamou a atenção de Silvio Santos, que a levou para o SBT.
Foi na emissora, e como pupila de Silvio, que Maisa passou a infância e o início da adolescência. Nesse período, a base familiar funcionou como uma blindagem. Ao final de cada ano, os pais a chamavam para conversar e sugeriam que ela deixasse a TV para focar exclusivamente nos estudos. A resposta era sempre a mesma. “Era o que eu amava, e é o que me faz feliz até hoje. Eles pararam de perguntar quando eu fiz uns 15 anos, porque viram que eu realmente gostava de fazer isso.”
Trabalhar desde cedo com Silvio Santos foi uma escola de comunicação e liderança. “O Silvio me deu uma aula de como ser um bom patrão. Se um dia eu tiver uma empresa do tamanho da que ele teve, quero ser pelo menos um pouco do que ele foi.”
Da TV ao streaming e à novela
A transição de criança prodígio para artista com autonomia sobre as próprias decisões ocorreu na mesma época em que integrou a lista Forbes Under 30. Com apenas 16 anos, ganhou um programa próprio no SBT e encarou uma rotina de gravações que ocupava até quatro dias de sua semana.
Dois anos depois, decidiu não renovar o contrato com o SBT para protagonizar a série “De Volta aos 15”, na Netflix. A decisão envolvia o risco do cancelamento da obra logo na primeira temporada, mas abriu caminho para novos formatos. “Sabe quando é algo que você mergulha de cabeça? Pensei: se não der certo, pelo menos eu sei que tentei.”
Em 2025, a atriz também marcou presença na TV Globo, de volta às novelas como sua primeira vilã, a Bia, em “Garota do Momento”. “Fiquei sete anos sem fazer novela. Quando anunciaram a personagem, fiquei pensando: ‘Será que eu ainda sei fazer isso?’”, conta. “A síndrome da impostora costuma me pegar no início do trabalho, mas depois que dou o pontapé inicial, fico mais aliviada.”
Além da atuação
Mesmo diante das câmeras, Maisa sempre teve uma veia empreendedora. O plano original era fundar uma agência publicitária aos 30 anos, quando a rotina de filmagens estivesse mais estável. No entanto, os planos foram acelerados quando seu empresário e atual sócio, Guilherme Oliveira, propôs o modelo de negócio. Com apenas 16 anos, acrescentou o título de empresária ao fundar a Mudah.
“Quero que a voz dos criadores seja escutada, que eles sejam valorizados e que façam o trabalho com naturalidade. Nós estamos ali para estruturar e dar as melhores ferramentas.”
Maisa também incorpora a sustentabilidade ao negócio: em parceria com a Associação Copaíba, a Mudah viabiliza o plantio de uma árvore na Mata Atlântica para cada campanha comercial comercializada.
O compromisso com a agenda ESG se estende à atuação como embaixadora do Unicef, contribuindo para a promoção e a defesa dos direitos de crianças e adolescentes.
Com quase 47 milhões de seguidores só no Instagram, Maisa vive e acompanha de perto as transformações da creator economy. Para ela, a capacidade de manter uma conexão duradoura com o público ao longo de duas décadas está baseada na consistência. “Eu me mantive em movimento, não tive um hiato grande na minha carreira”, diz. “Não existe fórmula para viralizar. Acredito em pilares, construção e criação de comunidade.”
Próximos passos de Maisa Silva
Hoje, Maisa dita o próprio ritmo: organiza a agenda para conseguir tirar férias com a família, faz terapia, pratica esportes e procura respeitar os próprios limites. Para o futuro, quer expandir a Mudah e os papéis no audiovisual, sem que o trabalho custe seu bem-estar: “Saúde, em primeiro lugar, é a minha maior meta, e depois felicidade. Se eu tiver esses dois, o céu é o limite.”
Confira a entrevista completa com Maisa no videocast da Forbes Brasil:
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A CEO que Levou a Petlove aos R$ 2,4 bilhões em Faturamento

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Aos sete anos, ao passar em frente a um colégio particular na Zona Norte de São Paulo e se impressionar com a dimensão da quadra esportiva, Talita Lacerda ouviu da mãe: “Você vai estudar aqui”. Filha de uma empregada doméstica e um marceneiro, ela não demorou a conseguir uma bolsa de estudos na instituição.
O episódio marcou o início de uma trajetória desenhada por quem aprendeu cedo a desafiar as estatísticas. “Muitas vezes ouvi que determinados espaços não eram para mim. A gente se sabota, então minha principal missão é provar que as pessoas não devem se colocar em caixinhas”, afirma a presidente da Petlove, maior ecossistema online de saúde e bem-estar animal do Brasil, à Forbes. “Não tem nada extraordinário sobre mim. Eu acreditei e fui atrás.”
No último mês, Talita completou cinco anos à frente da companhia, depois de atuar como investidora e conselheira. Sob a sua liderança, a empresa de 2.300 colaboradores fundada em 1999 deixou de ser apenas um e-commerce para operar como um ecossistema de saúde e bem-estar animal que reúne lojas físicas e online, assinaturas de produtos, atendimento veterinário, hospedagem, creche e pet sitter. O grupo tem pelo menos um ponto de atendimento em quase 400 cidades e está presente em 25 das 27 capitais brasileiras.
Em 2025, a Petlove faturou R$ 2,4 bilhões e projeta crescer 40% em 2026. As assinaturas respondem por 79% do faturamento do varejo. O plano de saúde pet opera desde 2021 e avança em um mercado cuja penetração ainda é inferior a 2% no país. Já o clube de descontos do aplicativo, lançado em 2023, soma mais de 600 mil assinantes.
Agora, a empresa encara um novo desafio, após a fusão das rivais Petz e Cobasi, aprovada pelo Cade no final de 2025, que criou uma gigante no varejo pet brasileiro. “Acreditamos na importância de um mercado saudável para garantir a concorrência e a diversidade de ofertas”, diz a CEO da Petlove. “Vamos seguir nos diferenciando pelo pioneirismo e pela democratização do cuidado com os pets.”
Mão na massa e apetite ao risco
Entre sonhos de virar comissária de voo, jornalista e advogada, Talita acabou seguindo pela área de negócios, depois de conseguir uma bolsa para estudar administração na FGV (Fundação Getulio Vargas). “Minha mãe via que os chefes da empresa onde trabalhava eram formados na FGV e colocou isso na cabeça.”
A aposta deu certo: ela iniciou a carreira na área de finanças e depois foi para consultoria, no BCG (Boston Consulting Group). Usou as primeiras economias para fazer uma viagem ao redor do mundo e se encantou pela China. Decidiu aprender mandarim e, pelo conhecimento do idioma, recebeu uma proposta para ser expatriada e lançar a marca Sadia, da BRF, no país. “Foi ali que eu descobri o que amava fazer: estar com a mão na massa, executando.”
Depois de concluir um mestrado nos Estados Unidos, retornou ao Brasil para ingressar na gestora SK Tarpon, tornando-se, em seguida, a segunda sócia da recém-criada Kamaroopin. Após liderar o primeiro aporte na Petlove, a gestora aproximou Talita das decisões estratégicas da companhia. Em 2021, ela foi incentivada pelo sócio a suceder o fundador, Marcio Waldman, e assumir a presidência da empresa.
No dia a dia da operação, a executiva une a bagagem corporativa à disciplina que aprendeu nas quadras — na juventude, cruzava a capital paulista da Zona Norte à Zona Leste para treinar handebol no Corinthians. “Comecei na escola e na quinta série passou a ficar sério. Às vezes, levava duas horas para chegar”, lembra. “O esporte é colaborativo, não é sobre ser o protagonista, é sobre criar oportunidades para alguém do seu time fazer o gol.”
Com o objetivo de consolidar a Petlove como a principal parceira dos médicos-veterinários, Talita projeta um legado que vai além de seu próprio nome. “O meu maior orgulho vai ser olhar alguns anos para a frente e ver uma organização perene, que continua crescendo”, diz. “A empresa não é a Talita, porque você tem a forma de operar e a cultura estabelecidas. Isso é o que transforma.”
Na entrevista a seguir, a CEO da Petlove reflete sobre as barreiras que precisou enfrentar ao longo da carreira, a cultura da empresa, os impactos da inteligência artificial e como a maternidade reconfigurou sua visão de liderança.
Confira os destaques da entrevista com Talita Lacerda, CEO da Petlove
Forbes: Você acaba de completar cinco anos como CEO da Petlove. Quais foram as maiores transformações da companhia sob a sua gestão?
Talita Lacerda: Passamos por muita transformação. Éramos um e-commerce focado em compra recorrente e, hoje, nos tornamos um ecossistema diversificado. Temos produtos, serviços (banho, passeio), planos de saúde e, para o mundo veterinário, oferecemos desde software até laboratórios.
Houve também a virada para o modelo de assinatura: hoje, 79% do nosso faturamento no varejo vem de assinaturas pagas. Outra mudança foi consolidar uma cultura de execução muito forte. Eu gosto bastante de alguns princípios de gestão da Amazon, então temos uma estrutura de células, com líderes únicos e times dedicados para resolver problemas com autonomia e velocidade, sem perder o nosso DNA pioneiro de startup.
Como você garante a qualidade do serviço em uma operação que cresceu tanto e entrou em áreas complexas, como o plano de saúde?
Essa é uma meta coletiva, que afeta o bônus de todos os colaboradores, independentemente da área. A satisfação do cliente, medida pelo NPS (Net Promoter Score), está nos nossos OKRs. Temos uma cultura de focar em métricas de input: mapeamos tudo o que é importante para uma boa experiência, como ter uma clínica perto de casa ou a facilidade no agendamento, e temos times focados exclusivamente em melhorar isso.
Como a inteligência artificial tem impactado a Petlove e a sua própria rotina como executiva?
A mudança é gigantesca. Na época do meu mestrado nos EUA, tive um foco grande em dados e machine learning, mas o trabalho era construir algoritmos preditivos e regressões. Hoje, a IA tem um nível de autonomia impressionante. O grande desafio é como dar o contexto certo para que ela funcione. Na Petlove, encorajamos todos a usarem: temos reuniões semanais de compartilhamento, plataformas de treinamento e áreas centrais focadas em aplicar a IA no atendimento, sempre com muito cuidado para garantir uma experiência fluida. No meu dia a dia, uso desde o básico para agendar reuniões e polir mensagens, até para montar dashboards de OKRs e analisar os dados das reclamações que chegam dos clientes.
Vocês conquistaram o selo Sistema B. Como foi esse processo e a preocupação com o impacto social?
Quando assumi como CEO, o meu sonho era garantir que a Petlove tivesse um impacto positivo e escalável na cadeia. Pensava muito na minha própria história: tenho um avô que era caminhoneiro e outro que trabalhava no Centro de Distribuição da Colgate. Nossa operação toca muitas vidas parecidas com as deles. A ideia era democratizar o acesso, permitindo que famílias das classes C e D também tivessem o direito de cuidar da saúde do seu pet, suprindo uma carência de serviços públicos.
Para não ficar em uma ideia etérea, fomos pesquisar. Falei com uma executiva que veio da Natura e ela estruturou como poderíamos medir isso. Foi o que nos guiou para o selo Sistema B. Também criamos um ambiente onde os colaboradores podem ter ações da companhia e acessar benefícios igualitários, como a licença parental.
Olhando para trás, como foi a sua trajetória profissional, desde a infância na Zona Norte de São Paulo até a cadeira de CEO?
Minha mãe começou a vida como empregada doméstica e meu pai, como marceneiro. Eles me deram uma casa com muito amor e garra. O primeiro ponto de virada foi conseguir uma bolsa de estudos em um colégio particular, aos sete anos, graças a uma assistente social. Foi uma adaptação difícil, porque eu convivia com pessoas de realidades econômicas muito diferentes. Não tinha uniforme novo, usava um doado, com joelheira. Isso me ensinou, desde nova, a me adaptar.
Quando criança, quis ser aeromoça e depois jornalista, só porque meu sonho era viajar o mundo. Depois, por causa do meu senso de justiça, achei que queria ser advogada. Mas minha mãe conseguiu um emprego em uma empresa, viu que os chefes eram formados na FGV e colocou isso na cabeça. Toda vez que eu falava de uma profissão nova, ela me desanimava e dizia: “Faz GV primeiro, depois você faz Direito”. Ela me direcionou e eu consegui passar com bolsa. Na FGV, acabei indo para finanças, mas logo percebi que queria entender a fundo as empresas e fui para consultoria, no BCG.
E como você foi parar na China?
Com o dinheiro que juntei no começo da carreira, fui fazer uma volta ao mundo. Passei pela China, me encantei e decidi que queria falar mandarim. Fui passar férias em Pequim para estudar e, em determinado momento, recebi uma proposta para lançar uma operação da BRF por lá. Fiquei quase três anos e descobri minha paixão por colocar a mão na massa. Depois, fui fazer um mestrado nos Estados Unidos junto com o meu marido.
Ao voltar para o Brasil, me juntei à gestora Tarpon, que estava criando a Kamaroopin com o Pedro Faria. Fui a segunda sócia. Nosso primeiro investimento foi a Petlove. Eu ficava no prédio vizinho e comecei a vir ajudar o Márcio no dia a dia, com recrutamento e estratégia. Até que um dos sócios me disse que eu deveria ser a CEO quando abriu o processo de sucessão. Fui candidata achando que jamais passaria, mas passei.
Você teve lideranças femininas que te inspiraram ao longo da carreira?
Profissionalmente, tive líderes maravilhosas, como a Flávia Faugeres na BRF. Também tive homens que abriram portas, como o Daniel Azevedo, no BCG, e o próprio Pedro Faria, que sempre me mentorou. Hoje, faço questão de retribuir participando de programas de mentoria com mulheres, empreendedores e crianças carentes.
Como a maternidade impactou a sua carreira e as suas ambições?
Tive a minha primeira filha no meio do mestrado nos EUA. Não foi planejado. Tive que levá-la para amamentar durante as aulas, mas fazia uma boa dupla com meu marido. A maternidade colocou minha motivação em outro lugar: querer deixar um mundo melhor para elas. Mas o principal foi a gestão do tempo. Aprendi a dizer “não”, o que foi uma das grandes viradas da minha carreira. Antes, eu dizia sim para tudo, virava noites. Ter filhos me ensinou a priorizar.
Quais outras lições você aprendeu ao longo do tempo?
Aprendi a parar de pedir permissão e, às vezes, pedir perdão. No começo, eu achava que a oportunidade viria até mim. Depois, entendi que você precisa se posicionar, ser assertiva na comunicação e criar a sua chance.
Para manter o ritmo de crescimento, como você planeja o futuro da companhia?
Nós trabalhamos muito com objetivos Moonshot. Primeiro, nós sonhamos alto e desenhamos o que queremos para daqui a cinco anos. Depois, traduzimos esse sonho em metas para um ano. E, por fim, quebramos esse um ano em passos de execução de três meses. É um passo por vez. Se o meu sonho lá na frente é ter um NPS de 90, o que eu preciso fazer nos próximos três meses para chegar lá? Vamos testando e adaptando.
Como é a sua rotina hoje?
Acordo à 5h da manhã, faço exercícios e levo as crianças na escola antes de vir para o escritório. Tenho o compromisso de chegar mais cedo em casa pelo menos uma vez por semana para colocar minhas filhas para dormir, e tento sempre jantar com meu marido. Uma vez por semana faço home office. Os finais de semana são 100% da família. Desconectamos, cozinhamos juntos e jogamos muito jogo de tabuleiro. Na adolescência eu era bem nerd com isso, adorava, e agora compro vários para jogar com as crianças. Também pinto quadros com a minha filha.
A sua mãe foi uma grande influência na sua vida e na carreira. Tem alguma memória ou lição dela que te acompanha até hoje?
Minha mãe é meu exemplo número um. Lembro de uma vez em que ela me levou para o interior, onde tentaria vender produtos. Ela não conseguiu fazer a venda no primeiro dia e chegou a chorar. Acabamos em uma pousada simples e ela convenceu o dono a nos deixar dormir lá, prometendo pagar no dia seguinte. Eu fiquei super preocupada, mas ela disse: “Vou fazer dar certo”. No outro dia, ela vendeu, pagou a pousada e ainda me levou para tomar sorvete. Ela sempre teve essa determinação.
Você tem algum pet em casa?
Temos a May, nossa cachorrinha que adotamos cinco anos atrás, pouco antes de eu entrar na Petlove. A minha mãe, que é a “pet lover raiz”, também tem. Ela dorme com os pets e me manda sugestões de melhorias para a empresa o tempo todo (risos).

Quais são os seus próximos objetivos à frente da Petlove?
Queremos ser a marca mais amada do Brasil e de maior confiança para os veterinários. Também queremos estar entre as melhores empresas para trabalhar — hoje somos a terceira do varejo segundo o ranking da Great Place To Work, mas a ambição é estar entre as melhores globais. Meu objetivo é garantir que a empresa continue escalando sem perder sua essência.
E na vida pessoal?
Quero ver minhas filhas se tornarem mulheres independentes e felizes. Queremos manter a tradição de viajar todo ano para conhecer uma cultura nova — o próximo destino é a China e Taiwan, já que elas começaram a estudar chinês. Quem sabe, em um futuro bem distante, quando eu me aposentar, eu abra uma floricultura junto com uma livraria para viver ali, fazendo arranjos e tendo uma vida bem tranquila.
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Negócios
Jeff Bezos diz que IA levará à escassez de mão de obra

A inteligência artificial levará à escassez de mão de obra, e não à substituição dos seres humanos, previu Jeff Bezos, fundador da Amazon, em uma participação bastante otimista na conferência de tecnologia VivaTech, realizada em Paris na quarta-feira (17).
Bezos apresentou uma visão otimista de como a tecnologia ajudará a humanidade, falando sobre projetos como sua empresa espacial Blue Origin e sua nova startup de IA, a Prometheus, que tem como objetivo acelerar a fabricação de produtos físicos.
“Sei que há muita preocupação por parte de muitas pessoas, inclusive de muitas pessoas inteligentes, de que a IA vá tornar os seres humanos desnecessários e assim por diante”, disse Bezos. “Discordo totalmente desse ponto de vista. E acho que, na verdade, a IA vai causar escassez de mão de obra.”
Metade dos norte-americanos teme que o avanço da IA possa deixá-los ou a alguém de sua família sem emprego, segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada este mês.
Bezos, a quarta pessoa mais rica do mundo, com um patrimônio líquido de cerca de US$ 250 bilhões, argumentou que as pessoas têm coisas “infinitas” para fazer e estão atualmente limitadas por barreiras que, segundo ele, a IA iria reduzir.
Um dos objetivos da exploração espacial é transferir as indústrias poluentes para fora da Terra, disse Bezos, cuja Blue Origin pretende competir com a SpaceX , do trilionário Elon Musk, no setor de foguetes.
“Se as viagens espaciais se tornarem confiáveis e baratas o suficiente, e pudermos obter materiais de asteroides, objetos próximos à Terra e da Lua, então este planeta-jardim poderá retornar ao seu estado anterior à Revolução Industrial”, disse Bezos.
Ao lado de Bezos estava o presidente-executivo da Blue Origin, David Limp, que disse que a reconstrução da plataforma de lançamento da empresa para os foguetes New Glenn já começou na Flórida, após uma explosão em maio.
Musk também apresentou uma visão ambiciosa para o espaço antes da abertura de capital da SpaceX na semana passada, incluindo planos para criar cidades na Lua e em Marte. Em uma entrevista com o presidente-executivo do JP Morgan, Jamie Dimon, na semana passada, ele falou sobre lançar centros de dados de IA ao espaço e passar férias na Lua.
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